sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Via Láctea


O texto abaixo, do poeta parnasiano Olavo Bilac é uma das minhas preferidas. Só o fato de alguém ouvir estrelas já é fantástico. Fico a imginar a cena. Como seria? Que sons chegariam aos nossos ouvidos?

Acredito que o autor alcança o puro lirismo na última estrofe. Boa demais! "Só quem ama á capaz de ter ouvido capaz de ouvir estrelas!" ... Sensacional!
Que amor seria esse?
A que ele estaria disposto?
Até onde iria?

Perfeito ...

Leiam, sintam ... deixem comentários!

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso! E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto,
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E ao vir do Sol, saudoso e em pranto
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Têm o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas."

(Olavo Bilac)

Fogo Morto - José Lins do Rego


Fogo Morto

José Lindo do Rego

Texto produzido por Oscar D'Ambrosio*

Publicado em 1943, "Fogo Morto", é uma contundente visão do processo de mudanças sociais e econômicas do Nordeste brasileiro. O título refere-se à transformação do Engenho Santa Fé, localizado na zona da mata da Paraíba, de núcleo de poder econômico a pólo de miséria, com o apagar definitivo de suas fornalhas.

"Fogo morto" é a expressão utilizada no Nordeste para denunciar a inatividade de um engenho. A forma como José Lins conta esse processo ultrapassa a mera classificação geralmente dada ao livro de romance regionalista e o insere na tradição brasileira, que inclui "O Cortiço", de Aluísio de Azevedo, como narrativa que toma como protagonista não um personagem isolado, mas um local, no caso, o engenho decadente.

Estilo do Autor

Marcado por frases curtas, pela espontaneidade e oralidade, próprias do cotidiano, o estilo do autor já se faz presente em "Menino de Engenho", seu primeiro romance, de 1932, que lhe rendeu o Prêmio da Fundação Graça Aranha. Esse livro já integra o seu ciclo da cana-de-açúcar, completado ainda por "Doidinho" (1933), "Bangüê" (1934), "O Moleque Ricardo" (1935), "Usina" (1936) e o próprio "Fogo Morto" (1943).

O último romance dessa saga nordestina é dividido em três partes: "Mestre José Amaro", "O Engenho de Seu Lula" e "Capitão Vitorino Carneiro da Cunha". A primeira trata especificamente do seleiro homônimo. Cada vez mais ensimesmado e agressivo, é abandonado pela esposa, vê a filha enlouquecer e perde o emprego com a progressiva crise econômica. Solitário, suicida-se.

Engenho em declínio

A segunda focaliza o próprio Engenho Santa Fé. Inicialmente, há a prosperidade levada adiante pelo fundador, o capitão Tomás Cabral de Melo. Já o seu genro, Luís César de Holanda Chacon, o Seu Lula, mais aristocrático, religioso e extremamente preconceituoso em relação aos negros, conduz o empreendimento ao declínio.

O Capitão Vitorino é o centro das atenções na parte final. Compadre de mestre Amaro e ironizado até a segunda parte do livro, torna-se, no último terço, um Dom Quixote (alusão ao personagem de Miguel de Cervantes) do sertão nordestino, com todo um discurso em prol da justiça e da igualdade social, que desafia o poder dos latifundiários. Sonhava então em atingir o poder político e, mesmo sem possibilidades concretas de tornar esse desejo realidade, imagina-se em postos de comando, escolhendo assessores e recebendo aclamações da população.

Temos assim, a narrativa de três fracassos: o seleiro que dá fim à sua existência isolado, o engenho cujo fogo não é mais aceso e o sonhador que vive mergulhado em suas fantasias de atingir uma posição social que está, na prática, bem distante dele. Essas derrotas são narradas com vigor por um escritor que, como mostrou seu discurso de posse na ABL, nunca se preocupou em agradar ao poder, seja na esfera literária, econômica ou política.


Oscar D'Ambrosio, jornalista, mestre em Artes pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Menino de engenho - José Lins do Rego



Essa obra de José Lins do Rego, nasceu da intenção de escrever a biografia de seu avô materno um patriarca do Nordeste. Mas o romancista soterrou o biógrafo, e a narrativa recaiu sobre a personagem Carlinhos, que, mesmo fictícia, vivencia cenas da infância do autor no mundo do canavial. Estruturada em 40 capítulos, relativamente curtos, é um dos ícones da literatura brasileira. Eis o motivo central dessa edição.


O romance enfoca os abalos das estruturas de uma sociedade rural aristocrática, latifundiária e escravocrata.

O universo complexo apresentado é o mundo de Carlinhos, o menino de engenho, que vai da pureza às deturpações de caráter, de uma realidade totalizadora a um destino individual. À semelhança de seus contemporâneos, a literatura de José Lins do Rego preocupa-se em revelar uma nova visão da realidade social, política e econômica do Brasil, em especial do Nordeste. O espelho das mazelas sociais é o elemento comum aos romancistas de 30, a segunda fase do modernismo brasileiro. O Romance de 30 apresentou dois caminhos nítidos: a prosa psicológica e a prosa regionalista - esta, por sua vez, subdividiu-se em ciclos; e José Lins do Rego é o criador do Ciclo da Cana-de-Açúcar.

Estilo de Época

A construção de Menino de Engenho se apóia em muitos aspectos do estilo predominante à época, o Modernismo. Fica evidenciado pelo enredo que se apresenta o apoio do romance na cultura brasileira. A trama se passa no típico engenho-de-açúcar nordestino, o ´Santa Rosa´, que constitui o cenário da construção do romance. Em torno dele se apresentam os costumes, as crendices, as superstições que refletem bem a nossa cultura.

O modernismo, como se sabe, exalta bem este nacionalismo, esta atmosfera brasileira, visível em todo o romance. Podemos ver no romance uma postura de um certo modo engajada, apesar da predominância no livro da idéia de evocação de uma infância marcada pela magia e o encanto da vida no engenho Santa Rosa.

De uma certa forma, o autor narra a miséria de forma degradante em que vivia o povo e mesmo, em breves momentos, o autoritarismo e a arrogância do Coronel Zé Paulino. A separação em castas é visível no romance, em que negros e trabalhadores compartilham de um regime de escravidão. A vida dos escravos, a senzala, o sofrimento e os castigos que os negros enfrentam no tronco são descritas pelo narrador de forma emotiva.

Um dos grandes momentos narrados na obra é a suntuosa ´enchente´ do rio, vista por Carlos com um misto de admiração e euforia, dando ares do dilúvio enfrentado por Moisés e sua arca na passagem bíblica. As crendices e superstições comuns nas camadas mais pobres dos Nordeste também são trazidas à tona pelo autor, como por exemplo, o aparecimento de lobisomem no Engenho ´Santa Rosa´ e arredores.

O folclore nordestino ganha destaque nas figuras da velha Totonha com suas histórias fantásticas e o cangaceiro Antonio Silvino e seu bando, pela importância que teve o cangaço à época no Nordeste. A alma brasileira fala com altivez neste romance ímpar, mostrando várias de suas peculiaridades. Importante observar que o estilo do autor mostra bem a forma espontânea, coloquial, com que estes contadores nordestinos são apresentados.

Foco Narrativo

O romance é narrado em primeira pessoa, pelo narrador-personagem Carlinhos, desenvolvendo-se em quarenta capítulos, realizando-se sob uma estrutura memorialista. Desse modo, o ponto de vista interno não só aproxima o narrador do leitor, implicando, assim, uma identificação entre essas duas instâncias, como, também, impregna, assim, o texto de intensa afetividade.

A opção por essa modalidade de foco narrativo entra em harmonia com o lirismo de que se reveste a narrativa. Narrador e leitor se aproximam do universo do feudalismo aristocrático, quando este ainda não havia sido engolido pelo capitalismo anônimo; mas o tom emotivo faz com que, de certa forma, o tom de denúncia e crítica social seja amainado, uma vez que a reconstrução desse tempo se dá sob a tessitura de saudosismo, de um talvez desejo em reviver tudo isso.

Tempo

O tempo, numa perspectiva simplista, é apresentado de forma cronológica: o narrador, o menino Carlinhos, tem quatro anos no início da narrativa, e está com doze anos, quando o livro termina. Entanto, Massaud Moisés, em ´Dicionário de termos literários´ (São Paulo: Cultrix, 1999, p. 453-454), chama-nos a atenção para o fato de o tempo, principalmente em termos de romance, ´provavelmente constitua o ingrediente mais complexo e o mais relevante: de certo modo, tudo no romance forceja por transformar-se em tempo, que seria, em última instância, o escopo magno do romancista.´

Nesse sentido, o ficcionista, tendo absoluto domínio sobre o tempo, pode acompanhar a personagem em toda a sua existência, mas tal expediente não exclui o haver do tempo psicológico, que se inscreve na narrativa quando o motivo textual são as volições da personagens, quando o que está em foco, portanto, é o mundo pastoso de sua subjetividade.

Espaço

O romance se passe na Zona da Mata nordestina, no Engenho Santa Rosa, onde praticamente acontecem todos os fatos marcantes do romance, na região que separa os estados de Pernambuco e Paraíba, dedução feita pelas transcrições das paisagens e das ocorrências, como a cheia do Rio Paraíba, e da vida dos engenhos de cana-de-açúcar.

Dentro deste espaço do engenho são descritos outros ambientes, como a senzala, a casa-grande, a cachoeira, o engenho Santa Fé, do coronel Lula de Holanda, entre outros de menor importância.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Uma galinha - Clarice Lispector


Uma Galinha

Clarice Lispector

Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque não passava de nove horas da manhã.

Parecia calma. Desde sábado encolhera-se num canto da cozinha. Não olhava para ninguém, ninguém olhava para ela. Mesmo quando a escolheram, apalpando sua intimidade com indiferença, não souberam dizer se era gorda ou magra. Nunca se adivinharia nela um anseio.

Foi pois uma surpresa quando a viram abrir as asas de curto vôo, inchar o peito e, em dois ou três lances, alcançar a murada do terraço. Um instante ainda vacilou — o tempo da cozinheira dar um grito — e em breve estava no terraço do vizinho, de onde, em outro vôo desajeitado, alcançou um telhado. Lá ficou em adorno deslocado, hesitando ora num, ora noutro pé. A família foi chamada com urgência e consternada viu o almoço junto de uma chaminé. O dono da casa, lembrando-se da dupla necessidade de fazer esporadicamente algum esporte e de almoçar, vestiu radiante um calção de banho e resolveu seguir o itinerário da galinha: em pulos cautelosos alcançou o telhado onde esta, hesitante e trêmula, escolhia com urgência outro rumo. A perseguição tornou-se mais intensa. De telhado a telhado foi percorrido mais de um quarteirão da rua. Pouco afeita a uma luta mais selvagem pela vida, a galinha tinha que decidir por si mesma os caminhos a tomar, sem nenhum auxílio de sua raça. O rapaz, porém, era um caçador adormecido. E por mais ínfima que fosse a presa o grito de conquista havia soado.

Sozinha no mundo, sem pai nem mãe, ela corria, arfava, muda, concentrada. Às vezes, na fuga, pairava ofegante num beiral de telhado e enquanto o rapaz galgava outros com dificuldade tinha tempo de se refazer por um momento. E então parecia tão livre.

Estúpida, tímida e livre. Não vitoriosa como seria um galo em fuga. Que é que havia nas suas vísceras que fazia dela um ser? A galinha é um ser. É verdade que não se pode ria contar com ela para nada. Nem ela própria contava consigo, como o galo crê na sua crista. Sua única vantagem é que havia tantas galinhas que morrendo uma surgiria no mesmo instante outra tão igual como se fora a mesma.

Afinal, numa das vezes em que parou para gozar sua fuga, o rapaz alcançou-a. Entre gritos e penas, ela foi presa. Em seguida carregada em triunfo por uma asa através das telhas e pousada no chão da cozinha com certa violência. Ainda tonta, sacudiu-se um pouco, em cacarejos roucos e indecisos.

Foi então que aconteceu. De pura afobação a galinha pôs um ovo. Surpreendida, exausta. Talvez fosse prematuro. Mas logo depois, nascida que fora para a maternidade, pare cia uma velha mãe habituada. Sentou-se sobre o ovo e assim ficou, respirando, abotoando e desabotoando os olhos. Seu coração, tão pequeno num prato, solevava e abaixava as penas, enchendo de tepidez aquilo que nunca passaria de um ovo. Só a menina estava perto e assistiu a tudo estarrecida. Mal porém conseguiu desvencilhar-se do acontecimento, despregou-se do chão e saiu aos gritos:

— Mamãe, mamãe, não mate mais a galinha, ela pôs um ovo! ela quer o nosso bem!

Todos correram de novo à cozinha e rodearam mudos a jovem parturiente. Esquentando seu filho, esta não era nem suave nem arisca, nem alegre, nem triste, não era nada, era uma galinha. O que não sugeria nenhum sentimento especial. O pai, a mãe e a filha olhavam já há algum tempo, sem propriamente um pensamento qualquer. Nunca ninguém acariciou uma cabeça de galinha. O pai afinal decidiu-se com certa brusquidão:

— Se você mandar matar esta galinha nunca mais comerei galinha na minha vida!

— Eu também! jurou a menina com ardor. A mãe, cansada, deu de ombros.

Inconsciente da vida que lhe fora entregue, a galinha passou a morar com a família. A menina, de volta do colégio, jogava a pasta longe sem interromper a corrida para a cozinha. O pai de vez em quando ainda se lembrava: "E dizer que a obriguei a correr naquele estado!" A galinha tornara-se a rainha da casa. Todos, menos ela, o sabiam. Continuou entre a cozinha e o terraço dos fundos, usando suas duas capacidades: a de apatia e a do sobressalto.

Mas quando todos estavam quietos na casa e pareciam tê-la esquecido, enchia-se de uma pequena coragem, resquícios da grande fuga — e circulava pelo ladrilho, o corpo avançando atrás da cabeça, pausado como num campo, embora a pequena cabeça a traísse: mexendo-se rápida e vibrátil, com o velho susto de sua espécie já mecanizado.

Uma vez ou outra, sempre mais raramente, lembrava de novo a galinha que se recortara contra o ar à beira do telhado, prestes a anunciar. Nesses momentos enchia os pulmões com o ar impuro da cozinha e, se fosse dado às fêmeas cantar, ela não cantaria mas ficaria muito mais contente. Embora nem nesses instantes a expressão de sua vazia cabeça se alterasse. Na fuga, no descanso, quando deu à luz ou bicando milho — era uma cabeça de galinha, a mesma que fora desenhada no começo dos séculos.

Até que um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se anos.

Texto extraído do livro “Laços de Família”, Editora Rocco — Rio de Janeiro, 1998, pág. 30. Selecionado por Ítalo Moriconi, figura na publicação “Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século”.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

A última crônica - Fernando Sabino


"A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.

Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.

Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho - um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular. A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.

São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "Parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura - ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido - vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.

Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso."

Crônica publicada no livro "A Companheira de viagem" (Editora Record, 1965)

Jorge Amado - 3º Ano


Jorge Amado ...

Amado por todos os baianos e brasileiros.
Que veracidade!
Que realidade exposta em tuas obras!

Bahia nunca retratada igual ... Sem exagero, sem omissão!

Quem já não ouviu falar em Jorge Amado? Grande jornalista, romancista e memorialista brasileiro, nascido na Bahia no ano de 1912. Começou sua trajetória como escritor na adolescência, escrevendo uma redação, onde foi muito elogiado. Após isso sofreu varias turbulências em sua vida como prisões por motivos políticos, mesmo já sendo um escritor conhecido foi acusado injustamente por atos não cometidos, mas incrível que nessas prisões, cada vez ele se estimulava a escrever seus romances literários impressionando os críticos que muitas vezes afirmavam que Jorge Amado não era um escritor e sim um explorador do exotismo da Bahia, já que suas obras literárias refletiam somente no estilo baiano, na sensualidade de seu cenário, no humor e na sensualidade de seus personagens, mas mesmo assim se tornou um dos romancistas mais lidos no Brasil e no mundo no século XX.
Foi um dos fundadores da Academia dos Rebeldes. Jorge Amado era um verdadeiro conhecedor da alma brasileira. As obras literárias de Jorge Amado foram adaptadas para o cinema, radio, programas de TV e teatro onde fizeram o maior sucesso, deixando personagens inesquecíveis como Tieta do Agreste, Gabriela interpretada por Sonia Braga, também tivemos Dona Flor e seus dois maridos, Tenda dos Milagres, Tocaia Grande dentre outros de seus romances, onde era explorada a beleza da mulher brasileira, atenção especial para cheiros e sabores locais, o carinho pelo povo pobre da Bahia, pelos poderosos, além de costumes e da cultura baiana.

Mais informações sobre Jorge Amado, acessem:

http://www.brasilescola.com/literatura/jorge-amado.htm
http://www.fundacaojorgeamado.com.br/
http://www.scribd.com/doc/7173508/Jorge-Amado-Tieta-Do-Agreste

Textos Parnasianos - 2º Ano


As poesias parnasianas são muito conhecidas por sua forma de seguir os métodos clássicos de composição poética, como uma reação ao Romantismo.
Dessa forma, é interessante observar que a "arte pela arte", divulgada pelos ideais parnasianos apresenta a impessoalidade e o universalismo como característica recorrente.

Mas, será que vocês ainda lembram das regras de escansão, de rima, classificação de versos etc, que foi estudado durante o 1º ano?

Então, só pra reforçar um pouco a memória de vocês e para que estudem para um exercício em breve, lá vai:

1. As estrofes podem ser classificadas em: Monóstico, Dístico, Terceto, Quarteto, Quintilha, Sextilha, Sétima, Oitava, Nona e Décima. 2. Os versos podem apresentarem-se como: Monossílabos, Dissílabos, Trissílabos, Tetrassílabos, Redondilha menor, Heróico quebrado, Redondilha maior, Octossílabos, Eneassílabos, Decassílabos, Hendecassílabos e Alexandrinos. 3. Rima (quanto a posição): Externa e Interna. 4. Sons: Consoantes e Assonantes. 5. Rima (palavras rimadas): Rima rara, Rica rica ou Rima pobre.
Mais informações nesse site, super interessante:

http://br.geocities.com/varga_o_bruxo/epoet.htm


Alguns textos parnasianos. Comente-os, galera!

Sesta de Nero

Fulge de luz banhado, esplêndido e suntuoso,
O palácio imperial de pórfiro luzente
É marmor da Lacônia. O teto caprichoso
Mostra em prata incrustado, o nácar de Oriente.

Nero no trono ebúrneo estende-se indolente
Gemas em profusão no estágulo custoso
De ouro bordado vêem-se. O olhar deslumbra, ardente
Da púrpura da Trácia o brilho esplendoroso.

Formosa ancila canta. A aurilavrada lira
Em suas mãos soluça. Os ares perfumando,
Arde a mirra da Arábia em recendente pira.

Formas quebram, dançando, escravas em coréia.
E Nero dorme e sonha, a fronte reclinando
Nos alvos seios nus da lúbrica Pompéia."

(Olavo Bilac)


Vaso Grego


Esta, de áureos relevos, trabalhada
De divas mãos, brilhante copa, um dia,
Já de os deuses servir como cansada,
Vinda do Olimpo, a um novo deus servia.

Era o poeta de Teos que a suspendia
Então e, ora repleta ora esvaziada,
A taça amiga aos dedos seus tinia
Toda de roxas pétalas colmada.

Depois... Mas o lavor da taça admira,
Toca-a, e, do ouvido aproximando-a, às bordas
Finas há de lhe ouvir, canora e doce,

Ignota voz, qual se de antiga lira
Fosse a encantada música das cordas,
Qual se essa a voz de Anacreonte fosse.

(Alberto de Oliveira)

Mais informações sobre o Parnasianismo:
http://www.colegiosaofrancisco.com.br/alfa/parnasianismo/parnasianismo.php

http://www.graudez.com.br/literatura/parnasianismo.html